ELAS ME OLHAM PELA JANELA


Puta susto!

Meu, juro que vi alguém me olhando pelo canto da janela.

Quando ia começar a escrever o conto, tenho certeza que tinha alguma coisa diferente no campo da minha visão de rabo de olho. É um reflexo natural virar o rosto e olhar e foi aí que vi alguém olhando pela janela, para dentro do meu quarto. Mas num piscar de olhos, não havia mais ninguém na janela.

Fiquei meio cabreiro, é claro. São Paulo é um lugar inóspito quando o assunto é segurança pública. E também, como todo mundo, tenho algumas coisas a esconder.

Desliguei o som do Iron Maiden e prestei atenção para identificar algum barulho que não se encaixa nos barulhos da minha casa.

Nada diferente.

Só a vó Luiza roncando na frente da TV, o barulho da geladeira, os carros passando na rua, os ônibus subindo a outra rua, as buzinas dos pais estressados na fila dupla para pegar os filhos na escola da rua de cima, o Neguinho latindo no quintal da vizinha, um sabiá solitário, alguém voltando do trabalho e falando alto ao celular, só os barulhos de sempre.

Posso ficar tranquilo porquê o Neguinho não está latindo para o lado de cá.

Vamos escrever. Estou inspirado.

Não cheguei a acabar o primeiro parágrafo e vejo pelo rabo de olho o vulto na janela. Viro rápido para olhar e vejo são duas cabeças; uma de cada lado da janela.

Mas o Neguinho está quieto. Com certeza não tem nada lá fora.

Abro a porta e dou a volta na casa; nada anormal. Pode ser que seja o cansaço. A vó Luiza vive dizendo que durmo pouco.

Tento voltar a escrever, levanto e vou até a janela. Olho para os dois lados através do vidro. Já está escuro, então pode ser que vi algum reflexo, só não sei do quê. Mas preciso escrever; estou com uma ideia boa aqui.

E antes de começar o segundo parágrafo, minha atenção volta-se para as duas cabeças me olhando pela janela.

Dessa vez não sumiram.

Tenho a impressão que as conheço! Estou chegando perto da janela...

Não acredito!

Estou correndo lá fora para recebe-las! Minhas duas ex-namoradas! Não acredito!

Mas que porra é essa? Cadê as duas? Será que entraram? Não, não estão no meu quarto. Será que estão cumprimentando a vó Luiza? Correndo para dentro.

— Vó! Vó, acorda!
— Hhhhuuuããã...
— Vó, acorda logo!
— Que foi Carlinhos?
— Vó, a senhora viu a Tais e a Bruna passarem por aqui?
— Hein?
— A Tais e a Bruna, vó! A senhora viu elas?
— Eu tava dormindo, e...
— Tá bom, vó. Continua dormindo que eu vou procurar elas.
— Se eu ver elas , digo que você tá procurando elas, tá bom.
— Tá bom, vó. Agora volta a dormir...

Na cozinha nada, no banheiro nada. Então elas já estão lá no meu quarto. Nunca deixei de amá-las e agora elas estão de volta!

Caralho! Cadê elas? E minha visão de rabo de olho encontrou-as no lado de fora da janela. Como elas são lindas!

— Espera aí, não saiam daí.

Correndo pela porta da cozinha, dando a volta. Porra! Cadê elas? M atenção voltou-se para a janela, mas para ver o que acontece do lado de dentro do meu quarto.

O Cd Dance of Death do Iron Maiden caindo da prateleira para o chão. A trilha sonora dos momentos especiais com a Bruna, espatifando-se no chão e a mídia rolando para debaixo da cama

O suporte feito com os ossos da Tais tombando para o lado, junto com minha guitarra, até cair no chão.

Elas me amam! Olha elas aí: a Tais aqui no conto esquerdo e a Bruna no canto direito da janela.

Tô chegando aí meus amores! Correndo, correndo rápido. Entrando pela porta da sala.

— Cheguei!

Cadê elas? Safadinhas! Querem brincar de esconde-esconde.

— Ah, vocês estão aí? Do lado de fora de novo?

Levantei a veneziana para que elas pulassem a janela. Não estão mais aqui.

Tais e Bruna: até agora, são meus eternos amores.
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Autor Dimensão Medo

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